Fichamento sobre parte A - "Domínio Público" de Hertzberger

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Mulher na janela, Belmiro de Almeida


    A primeira parte do livro de Hetzberger sem dúvida trabalha com a complexidade das relações sociais e espaciais.

    A obra inicia com uma discussão sobre o público e privado, sendo argumentado que apesar de as associarmos com a ideia de propriedade, elas são mais complexas que isso, pois estão relacionadas com a maneira como as pessoas usam o espaço. Nessa lógica, o arquiteto tem o dever de projetar o espaço de maneira que os usuários consigam criar um senso de pertencimento. Porém, tomando o cuidado de não criar ambientes que incentivem o individualismo ou coletivismo extremo, porque isso pode desequilibrar a vida pública e privada.

    Além disso, o livro explica como a demarcação clara de território é importante, porque se ninguém se sente responsável por aquele espaço, ele não será cuidado. Assim, cada espaço precisa ter sinais legíveis de apropriação para que a responsabilidade da manutenção seja de alguém. Ou seja, o arquiteto precisa prever esses espaços e permitir sua dominação e personalização. Por isso, Hetzberger defende a existência de espaços semiprivados e semipúblicos (transição entre zonas), dessa maneira, as pessoas se sentirão pertencentes e responsáveis a cuidar deles porque remetem às suas zonas privadas ("ninhos seguros"). Assim, transformamos usuários em moradores. 

    A ideia de maior liberdade das pessoas nos espaços que elas convivem também é explorada por Vilém Flusser em seu texto "Design: Obstáculo para remoção de obstáculos?". Ambas as obras discutem a responsabilidade e liberdade do projetista na criação de objetos e no urbanismo, e, por isso, defendem que o ato de projetar não deve resultar em designs acabados e impositivos, mas sim em estruturas que permitem a apropriação e a autonomia do usuário. 

    O intervalo é o espaço entre zonas. São corredores, escadas, pátios, varandas e halls onde acontecem encontros e socialização. Estes e outros espaços públicos devem ser vistos como coletivos para que haja uma apropriação comunitária, desse modo, devem ser acessíveis e acolhedores. No entanto, vemos que um dos espaços públicos mais importantes - a Rua - é desvalorizada. O que era uma demarcação privada no espaço público, isto é, um espaço de encontro e extensão da própria casa, hoje é visto como um lugar perigoso usada apenas para circulação quando necessário. Consequentemente, o urbanismo já não constrói mais ruas que convidam a permanência.

    Espaço públicos sem apropriação da população são apenas espaços vazios. Elas devem permitir a penetração do privado no público ao incentivar permanência, permitir usos imprevistos e acomodar diferentes idades e atividades. Por outro lado, a penetração do público no privado é pouco discutido, mas ajuda a criar cidades mais acolhedoras e vivas. Isso porque varandas, jardins de frente, entradas abertas de edifícios e janelas grandes não só humanizam edifícios, mas também permitem que as pessoas olhem para dentro e vejam o privado. Eles dizem "não estamos nos escondendo, você pode olhar".

    

    


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